sexta-feira, 16 de maio de 2014

En/stranha

Um polvo dentro da minha barriga.
Antes fosse produto de simples deglutição.
Internamente externo.
Entre serosas e não mucosas.
Comprimido entre estômago e diafragma.

A curiosidade da procedência é alternada pelo embaraço.
Como tal criatura passou despercebida por tanto tempo?

Em retrospecto as pulsações já eram indícios antigos.
Ouvia de tudo, menos os gritos internos.
A consequência de correr de si uma hora nos alcança.

Agora não há outra solução
senão analisar o espécime.
Convido-o educadamente a sair.
Qual minha surpresa quando a mão estendida
encontra tentáculos receptivos!

Em ar ambiente percebo algo de errado.
Apesar da falta de expertise em zoologia,
noto algo que poderia ser chamado de prostração.
Avalio a cavidade que vem fazendo de residência.
Pus, muco, inflamação e tinta.

Estaria o cefalópode fazendo mal a mim
Ou eu a ele?
Elucubrações à parte, medidas precisavam ser tomadas.
Lavagem, limpeza, assepsia de ambos.

Sobreviveremos afinal.
As pulsações se acalmam,
a prostração diminui.

A última etapa... Destino final?
Aquário, praia, alto mar...
Pergunto-me debruçado ao futuro viajante.
Suas projeções tentam alcançar o espaço virtual que habitava.
Como quem suplica pelo habitat natural.

Seria este ser produto de uma gestação estapafúrdia em andamento?
Ou ainda parte integrante da minha pessoa?
Variação anatômica?
Faltam respostas sobram perguntas.

De toda forma já estava acostumado a servir de moradia.
Mesmo que não consciente de sua presença.
Acolho com a condição de observar atentamente.
Na presença de indícios de depredação de propriedade
a expulsão será mandatória.

Um tentáculo à testa sugere concordância com os termos de consentimento.
O inquilino retorna, satisfeito.
O senhorio, perplexo,
sorri.

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